A relação entre pressão arterial e progressão da Esclerose Múltipla
- Priscila Emery
- 5 de jan.
- 3 min de leitura

A esclerose múltipla (EM) é uma doença neurológica inflamatória e progressiva, influenciada não apenas por fatores imunológicos, mas também por condições cardiovasculares. Novas evidências apresentadas no ECTRIMS 2025 mostram que as categorias de pressão arterial da American Heart Association (AHA), especialmente a hipertensão estágio II, são fortes preditores do agravamento da incapacidade em pessoas com EM.
Esse achado reforça algo cada vez mais discutido na neurologia moderna: cuidar do coração também é cuidar do cérebro.
Por que a hipertensão importa na Esclerose Múltipla?
A hipertensão já é reconhecida como fator de risco para piores desfechos em pacientes com EM. No entanto, até recentemente, não estava claro qual métrica de pressão arterial era mais confiável para identificar quem apresentava maior risco de progressão da incapacidade.
O novo estudo buscou responder exatamente essa pergunta, comparando diferentes formas de avaliar a pressão arterial e sua relação com a piora funcional ao longo do tempo.
O estudo: como a pressão arterial foi analisada
Pesquisadores realizaram uma análise retrospectiva de coorte com pacientes acompanhados em uma clínica acadêmica de esclerose múltipla entre 2020 e 2024. Foram comparadas diversas medidas de pressão arterial, incluindo:
Pressão arterial sistólica média
Pressão arterial diastólica média
Diagnóstico médico formal de hipertensão
Classificação da pressão arterial segundo a American Heart Association (AHA)
O desfecho principal foi a progressão da incapacidade, avaliada pela mudança na Escala Expandida do Estado de Incapacidade.
Quem participou da pesquisa
O estudo avaliou 138 pacientes, com perfil clínico bem definido:
72% mulheres
Idade média de 45 anos
92% com esclerose múltipla remitente-recorrente
71,7% classificados como hipertensos segundo a AHA
Pela classificação da AHA:
18,1% tinham pressão arterial normal
12,3% pressão arterial elevada
46,4% hipertensão estágio I
23,2% hipertensão estágio II
Hipertensão estágio II: o principal sinal de alerta
Os resultados foram claros:A hipertensão estágio II, conforme definida pela AHA, apresentou a associação mais forte com a progressão da incapacidade na EM.
Além disso:
Pressão arterial sistólica média mais elevada também se associou à piora da incapacidade
Pressão arterial diastólica média não mostrou associação significativa
Apenas o diagnóstico médico de hipertensão, isoladamente, também não foi um bom preditor
Mesmo após ajustes para idade, sexo, subtipo de EM, tempo de acompanhamento, tipo de tratamento e níveis séricos de neurofilamento leve, a associação entre hipertensão estágio II e agravamento da incapacidade permaneceu significativa.
O que isso muda na prática clínica?
Esses achados sugerem que usar as categorias da AHA, e não apenas o diagnóstico genérico de hipertensão, pode melhorar a estratificação de risco em pacientes com esclerose múltipla.
Na prática, isso significa:
Monitorar a pressão arterial com mais atenção no acompanhamento neurológico
Identificar precocemente pacientes com hipertensão estágio II
Integrar o controle rigoroso da pressão arterial ao plano terapêutico da EM
Essa abordagem pode ajudar a reduzir o risco de progressão funcional, além de trazer benefícios cardiovasculares amplamente conhecidos.
Conclusão: pressão arterial como aliada no cuidado da EM
O estudo apresentado no ECTRIMS 2025 reforça que a hipertensão estágio II, segundo a American Heart Association, é um marcador relevante de pior prognóstico funcional na esclerose múltipla.
Mais do que um número no consultório, a pressão arterial se consolida como um biomarcador clínico acessível, capaz de orientar decisões e personalizar o cuidado neurológico.
Para quem vive com EM, controlar a pressão arterial não é apenas uma questão cardiológica — é parte essencial da estratégia para proteger o cérebro e preservar a autonomia ao longo do tempo.




Comentários