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Menopausa pode piorar os sintomas da esclerose múltipla?

Foto do escritor: Priscila Emery
Priscila Emery
há 4 dias
7 min de leitura
A queda de estrogênio ao longo da menopausa está entre os fatores associados a mudanças cognitivas e à evolução da esclerose múltipla em mulheres.
A queda de estrogênio ao longo da menopausa está entre os fatores associados a mudanças cognitivas e à evolução da esclerose múltipla em mulheres.

Para muitas mulheres com esclerose múltipla, chegar aos 40 e poucos anos traz uma pergunta que raramente é discutida no consultório: os sintomas que aparecem agora fazem parte do envelhecimento natural, da menopausa, ou são sinal de que a doença está avançando?


A resposta não é simples — e talvez não seja uma coisa isolada da outra.


Nos últimos anos, a neurologia vem observando a menopausa sob uma perspectiva diferente: não apenas como o fim de uma fase reprodutiva, mas como uma transição que afeta diretamente o cérebro. Compreender essa relação pode mudar a forma como mulheres com esclerose múltipla atravessam essa fase da vida.


Por que a menopausa é vista como uma transição neurológica?


A menopausa vem sendo cada vez mais reconhecida como um evento neurológico, e não apenas hormonal ou reprodutivo. Evidências científicas associam esse período a maior risco de declínio cognitivo, ao aumento do risco de doença de Alzheimer e à piora de quadros já existentes, como a esclerose múltipla.


A queda de estrogênio é apontada como o principal fator por trás dessas mudanças. Como explica Rhonda Voskuhl, neurologista da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e diretora do programa de esclerose múltipla da instituição, a idade média da menopausa é 51 anos — o que significa que, em média, as mulheres vivem cerca de um terço da vida com deficiência de estrogênio.


Esse reconhecimento tem levado mais instituições a desenvolverem programas específicos voltados à menopausa, justamente por perceberem os efeitos da queda hormonal crônica sobre diferentes sistemas do organismo, incluindo o cérebro.


O que é o "nevoeiro mental" da menopausa?


Um dos sintomas mais relatados por mulheres nessa fase é a sensação de confusão mental, popularmente chamada de "brain fog". Segundo a Dra. Voskuhl, esse fenômeno envolve dificuldades específicas em domínios cognitivos como memória verbal, memória de trabalho e velocidade de processamento.


Exames de ressonância magnética mostram que essas queixas têm correspondência estrutural: atrofia e alterações na conectividade funcional em regiões como o hipocampo e o córtex pré-frontal, áreas ligadas à memória e ao raciocínio.


A idade da menopausa influencia o risco de declínio cognitivo?


Sim, e esse é um dos pontos mais relevantes discutidos atualmente. Segundo a Dra. Voskuhl, passar pela menopausa mais cedo do que a média significa viver menos anos sob proteção estrogênica, o que tem sido associado a maior risco de desenvolver Alzheimer e comprometimento cognitivo.


Um estudo de 2025, que utilizou dados clínicos e de autópsia do Rush Memory and Aging Project, encontrou que a menopausa precoce esteve associada a uma relação mais forte entre redução da integridade sináptica, declínio cognitivo mais rápido e maior presença de proteína tau — uma proteína relacionada a processos neurodegenerativos.


Há ainda outro aspecto importante: existe diferença entre envelhecimento cronológico e envelhecimento biológico, e a menopausa tem sido associada a uma aceleração do envelhecimento biológico do organismo.


Como a menopausa se relaciona com a piora da esclerose múltipla?


Entre mulheres que já convivem com esclerose múltipla, a menopausa tem sido associada a piora de sintomas. Segundo Riley Bove, neurologista da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF), a explicação mais consistente até agora é a sobreposição de sintomas: questões como sono, fadiga, humor, controle da bexiga, libido e cognição aparecem tanto na perimenopausa quanto na esclerose múltipla, o que intensifica o desconforto e o sofrimento das pacientes.


Essa reflexão aparece na análise de especialistas sobre menopausa e esclerose múltipla que serve de base para este texto, que reúne achados ainda em investigação. Dados preliminares do trabalho da equipe da UCSF sugerem uma possível aceleração da neurodegeneração após a última menstruação em mulheres com esclerose múltipla, identificada por meio de um biomarcador chamado neurofilamento leve — uma proteína liberada quando há dano a fibras nervosas —, mas isso ainda não é claramente observado em avaliações clínicas tradicionais. A própria pesquisadora pondera que a maioria dos estudos observacionais ainda não acompanhou pacientes por tempo suficiente para confirmar esses achados iniciais.


Estudos de imagem por ressonância magnética em mulheres na menopausa com esclerose múltipla também têm mostrado alterações estruturais compatíveis com neurodegeneração, incluindo atrofia do córtex cerebral.


A terapia hormonal pode proteger o cérebro nesse contexto?


Essa é uma das questões mais debatidas atualmente, e ainda não há resposta definitiva. Não existem, até o momento, dados de estudos controlados que comprovem que a terapia hormonal da menopausa tem efeito neuroprotetor.


Em estudos observacionais, incluindo um conduzido com dados do Nurses' Health Study, pesquisadores observaram melhor função física entre mulheres na pós-menopausa com esclerose múltipla que usavam terapia hormonal. No entanto, a própria Dra. Bove alerta que esse achado pode refletir um viés: mulheres que já têm melhor funcionalidade podem simplesmente ser mais propensas a optar pela terapia hormonal, o que não permite concluir que o hormônio seja a causa da melhora.


Outro ponto de atenção é que nem todos os estrogênios são iguais. A proteção neurológica depende do tipo de estrogênio, de como ele se liga aos receptores e da dose utilizada. O estradiol, por exemplo, é o estrogênio aprovado para tratar sintomas vasomotores e atrofia vulvovaginal da menopausa, mas os estudos da Women's Health Initiative, no início dos anos 2000, não mostraram efeito neuroprotetor do estradiol contra o risco de demência.


Mais recentemente, o Kronos Early Estrogen Prevention Study também não encontrou efeito neuroprotetor do estradiol contra alterações de longo prazo na substância branca do cérebro.


O que a pesquisa com estriol revela?


Um estrogênio específico, o estriol, vem sendo estudado por um caminho diferente. Esse hormônio é único da gravidez, e é justamente durante a gestação que a esclerose múltipla costuma melhorar: dados mostram uma redução de aproximadamente 70% nas taxas de recaída no terceiro trimestre, seguida de aumento das recaídas no pós-parto.


Essa observação motivou tentativas de reproduzir, farmacologicamente, a proteção observada na gravidez. Em 2002, a Dra. Voskuhl e colaboradores conduziram dois estudos de fase 2 nos quais o estriol foi administrado por via oral a mulheres com esclerose múltipla que não estavam grávidas:


No primeiro deles, um estudo de braço único, o uso de estriol foi associado a uma redução de 80% nas lesões captantes de contraste — sinal de inflamação ativa — observadas em ressonâncias magnéticas mensais. Também houve modulação da resposta imunológica periférica, que se correlacionou com a redução das lesões, além de melhora no desempenho em testes de velocidade de processamento.


No segundo estudo, duplo-cego e controlado por placebo, o estriol também esteve associado à melhora na velocidade de processamento após 12 meses, com maior melhora entre as participantes com níveis sanguíneos mais altos do hormônio. Houve ainda menor atrofia do córtex cerebral nas ressonâncias e redução dos níveis de neurofilamento leve no sangue, em comparação ao grupo placebo.


Estudos pré-clínicos ajudam a explicar por que isso pode acontecer: o tratamento com estriol esteve associado à manutenção da mielina — a camada protetora que envolve as fibras nervosas — na substância branca, e à preservação de sinapses em regiões de substância cinzenta, como córtex e hipocampo, com menor atrofia dessas áreas.


O mecanismo proposto envolve a ligação do estriol a um receptor específico de estrogênio, conhecido como ERβ, presente em dois tipos de células: os oligodendrócitos, que produzem mielina, e a micróglia, células de defesa do sistema nervoso, cuja atividade inflamatória seria reduzida por essa via. Um estudo publicado em 2023, conduzido em modelo animal de menopausa, encontrou resultados que reforçam esses efeitos.


É importante destacar que, apesar desses achados serem promissores, o estriol ainda não é aprovado para neuroproteção ou para o tratamento de doenças neurodegenerativas. Estudos clínicos maiores ainda são necessários para confirmar se esses efeitos se traduzem em benefícios clínicos consistentes e duradouros em humanos.


O que os especialistas recomendam até o momento?


Para a Dra. Voskuhl, a prevenção por meio do início precoce de um tratamento hormonal seguro e com evidências de neuroproteção é um ponto central. Segundo ela, o estriol pode ser considerado em mulheres sem contraindicações à terapia hormonal — como histórico de câncer de mama, distúrbios de coagulação ou acidente vascular cerebral —, seguindo protocolos baseados nos resultados publicados até aqui.


Ela também destaca hábitos de vida associados à saúde cerebral: praticar exercícios três vezes por semana, não fumar, seguir um padrão alimentar semelhante ao mediterrâneo e limitar o consumo de álcool a no máximo uma dose, três vezes por semana. Ainda assim, pondera que dieta e exercício isoladamente não substituem uma proteção neurológica mais robusta em mulheres com deficiência de estrogênio, que se beneficiariam de um tratamento neuroprotetor específico.


Já a Dra. Bove reforça a importância do acompanhamento clínico a partir dos 45 anos, orientando as pacientes sobre os sintomas esperados da perimenopausa — deixando claro que eles não necessariamente indicam progressão da esclerose múltipla. Sintomas como alterações do sono, fogachos, mudanças de humor, questões urinárias, dores articulares e queixas cognitivas podem ser tratados com abordagens medicamentosas e não medicamentosas. Segundo ela, mesmo quando o neurologista não é responsável por prescrever a terapia hormonal, é importante incentivar a paciente a buscar tratamento para fogachos incômodos.


Não há, até o momento, dados que sugiram que mulheres com esclerose múltipla devam evitar a terapia hormonal quando ela é indicada por outros motivos.


A especialista acrescenta que os fatores de risco típicos do envelhecimento cognitivo na meia-idade também devem ser considerados nesse acompanhamento, assim como a garantia de uma boa relação da paciente com um médico de atenção primária, para cuidar de questões que vão além do campo neurológico.


O que ainda falta descobrir?


Segundo a Dra. Bove, ainda há lacunas importantes: entender como e por que a neurodegeneração pode se acelerar após a menopausa, avaliar diferentes abordagens neuroprotetoras — incluindo intervenções nutricionais e de exercício —, e compreender o quanto um manejo adequado da perimenopausa pode influenciar os desfechos de longo prazo da esclerose múltipla.


O que fica desse conjunto de evidências


O principal achado científico por trás dessa discussão é que a menopausa não é apenas o fim da vida reprodutiva: trata-se de uma transição com efeitos mensuráveis sobre a cognição e sobre a evolução de doenças neurológicas como a esclerose múltipla, impulsionada em grande parte pela queda de estrogênio.


Ainda assim, muitas perguntas seguem em aberto — os dados sobre terapia hormonal são associativos, não comprovam causa e efeito, e mesmo as abordagens mais promissoras, como o estriol, ainda dependem de confirmação em estudos maiores.


Reconhecer a menopausa como um momento neurológico, e não apenas hormonal, é um convite para que esse período passe a fazer parte do acompanhamento contínuo de mulheres com esclerose múltipla, com a mesma atenção dedicada a outras fases da doença.


 
 
 

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