top of page

Terapias celulares para a esclerose múltipla: o que as pesquisas mais recentes revelam?

  • Foto do escritor: Priscila Emery
    Priscila Emery
  • há 1 dia
  • 5 min de leitura

Terapias celulares em estudo para a esclerose múltipla buscam restaurar a tolerância imunológica e representam uma das frentes mais ativas da pesquisa sobre formas progressivas da doença.
Terapias celulares em estudo para a esclerose múltipla buscam restaurar a tolerância imunológica e representam uma das frentes mais ativas da pesquisa sobre formas progressivas da doença.


Os tratamentos disponíveis hoje para a esclerose múltipla mudaram profundamente a vida de quem convive com a doença. Ainda assim, uma pergunta segue em aberto para uma parcela importante dos pacientes: por que algumas pessoas continuam apresentando progressão da incapacidade, mesmo em uso regular de terapias modificadoras da doença?


Uma revisão científica publicada em uma revista internacional de biologia molecular reuniu o que vem sendo investigado sobre um caminho ainda experimental, mas promissor: as terapias celulares. A proposta não é substituir os tratamentos atuais, e sim entender por que a ciência está buscando ir além deles.


Vale destacar, antes de qualquer coisa, que se trata de pesquisa em estágio inicial. Nada do que será descrito aqui está disponível como tratamento padrão para esclerose múltipla. Mas entender essa fronteira da pesquisa ajuda a compreender para onde a ciência está caminhando.


Por que a pesquisa busca alternativas às terapias já existentes?


As terapias modificadoras da doença atuam reduzindo a atividade inflamatória e modulando a resposta imunológica, e isso desacelera a progressão da esclerose múltipla. Mas os pesquisadores apontam uma limitação importante: uma parte considerável dos pacientes tem resposta parcial ou insuficiente a esses medicamentos, especialmente nas formas progressivas da doença.


Além disso, o uso prolongado dessas terapias pode estar associado a efeitos colaterais como imunossupressão, alterações ósseas e problemas gastrointestinais. É esse cenário que motiva a busca por abordagens que atuem de forma mais direcionada sobre a raiz do problema imunológico.


O que são, afinal, as terapias celulares?


Diferentemente dos medicamentos tradicionais, as terapias celulares utilizam células do próprio sistema imunológico, coletadas, modificadas ou estimuladas em laboratório, para tentar restaurar algo que se perde na esclerose múltipla: a tolerância imunológica.


Em termos simples, a tolerância imunológica é a capacidade do organismo de reconhecer seus próprios tecidos, como a mielina que reveste os neurônios, sem atacá-los. Na esclerose múltipla, essa capacidade fica comprometida, e células de defesa passam a agredir a bainha de mielina por engano. As terapias celulares buscam, cada uma à sua maneira, corrigir essa falha de reconhecimento.


Quais abordagens estão sendo estudadas?


A revisão descreve diferentes frentes de pesquisa, cada uma com uma lógica própria.

Uma delas é o transplante autólogo de células-tronco hematopoiéticas, um procedimento que busca "reiniciar" o sistema imunológico. As células de defesa do próprio paciente são coletadas, o sistema imunológico é suprimido e, em seguida, as células-tronco são reinfundidas para reconstruir um sistema imune renovado. Segundo a revisão, esse procedimento tem se mostrado eficaz na redução de crises, mas carrega riscos relevantes, o que limita seu uso a casos mais graves e resistentes aos tratamentos convencionais.


Outra linha de pesquisa envolve células-tronco mesenquimais, que têm propriedades anti-inflamatórias e parecem favorecer a proteção de neurônios e a formação de nova mielina. Os estudos citados na revisão mostram que essas células são consideradas seguras, mas os resultados sobre sua eficácia real ainda são inconsistentes entre os estudos.


Uma terceira abordagem utiliza células dendríticas tolerogênicas, células que, expostas a fragmentos de mielina em laboratório, são reprogramadas para ensinar o sistema imunológico a parar de atacar essa estrutura, em vez de estimulá-lo. Os primeiros testes em humanos indicam segurança, mas os pesquisadores alertam que expor o organismo a fragmentos de mielina no momento errado, durante um período de inflamação ativa, pode piorar a doença em vez de melhorá-la.


Há ainda pesquisas com células T reguladoras, um tipo de célula que naturalmente funciona como um "freio" do sistema imunológico. Na esclerose múltipla, essas células reguladoras costumam estar reduzidas em número ou funcionando de forma inadequada. A ideia é multiplicá-las em laboratório e devolvê-las ao paciente para restaurar esse controle.


Por fim, a revisão descreve versões geneticamente modificadas dessas células reguladoras, programadas em laboratório para reconhecer especificamente a mielina, além de células chamadas CAR-T, originalmente desenvolvidas para tratar alguns tipos de câncer e agora adaptadas para eliminar de forma direcionada as células de defesa que produzem anticorpos contra o próprio sistema nervoso.


Em que estágio está essa pesquisa?


Segundo os autores da revisão, a abordagem que mais avançou até o momento é a terapia com células CAR-T direcionadas a eliminar células de defesa específicas. Estudos clínicos em fase inicial, ainda com poucos pacientes, mostraram sinais de estabilização em casos de esclerose múltipla progressiva, uma forma da doença para a qual as opções de tratamento atual são mais limitadas.


Já as terapias baseadas em receptores de células T ainda estão majoritariamente em fase pré-clínica, ou seja, testadas em modelos experimentais e não ainda em grande número de pacientes.


Os autores são claros ao afirmar que essa é uma área de pesquisa dinâmica, mas que ainda depende de estudos maiores, com acompanhamento mais longo, para confirmar segurança e eficácia de forma consistente.


Quais são os principais desafios apontados pelos pesquisadores?


A revisão aponta riscos específicos para cada abordagem. O transplante de células-tronco hematopoiéticas está associado a maior risco durante o procedimento. As terapias com células CAR-T podem provocar reações inflamatórias intensas e efeitos neurológicos que, em alguns casos, os autores descrevem como potencialmente duradouros. Já as abordagens baseadas em fragmentos de mielina exigem cautela quanto ao momento de administração, já que podem, em teoria, piorar a inflamação em vez de contê-la.


Os próprios autores reconhecem limitações importantes na literatura atual: grande parte dos dados vem de estudos pré-clínicos, que nem sempre refletem a complexidade da doença em humanos, e o ritmo acelerado das descobertas nessa área significa que novos achados podem surgir rapidamente, tornando qualquer retrato atual algo provisório.


O que isso significa para quem vive com esclerose múltipla?


Para pacientes e familiares, o principal aprendizado não é a expectativa de um novo tratamento imediato. É a constatação de que a ciência está ativamente investigando formas de tratar especialmente as formas progressivas da doença, hoje as mais difíceis de controlar com os recursos disponíveis.


Compreender essa direção da pesquisa ajuda a acompanhar com mais clareza as notícias sobre avanços no tratamento da esclerose múltipla, sem cair nem no otimismo exagerado, nem no ceticismo diante de um campo que, segundo os próprios pesquisadores, ainda está em construção.


O que fica dessa revisão científica


As terapias celulares representam uma tentativa de tratar a esclerose múltipla na origem do problema imunológico, e não apenas conter seus efeitos. Entre as abordagens estudadas, a terapia com células CAR-T surge como a mais promissora até aqui, sobretudo para as formas progressivas da doença, embora os próprios autores reforcem que ainda são necessários estudos maiores e de acompanhamento mais longo antes de qualquer aplicação mais ampla.


Acompanhar esse tipo de evidência científica, com o cuidado de entender o que já é robusto e o que ainda é exploratório, é parte de viver bem com a esclerose múltipla no presente, sem perder de vista os caminhos que a ciência está abrindo para o futuro.


 
 
 

Comentários


Neurologista - CRM 26635 - RQE 15534

CONTATO
(31) 3213-3022  |  (31) 99917-3022
Av. Professor Alfredo Balena, 189 SL 1708
Santa Efigênia,  Belo Horizonte - MG.
  • Instagram
© 2024 Site Dr. Paulo Christo   |   Todos os direitos reservados   |    DNZ Digital Criação de Sites
bottom of page