top of page

Crises de ausência: por que um episódio neurológico pode passar despercebido

Foto do escritor: Priscila Emery
Priscila Emery
há 11 minutos
3 min de leitura


Crises de ausência mostram que alterações neurológicas breves também merecem atenção médica e diagnóstico preciso. Imagem: Alex Grimm/Getty Images
Crises de ausência mostram que alterações neurológicas breves também merecem atenção médica e diagnóstico preciso. Imagem: Alex Grimm/Getty Images


Um jogador em campo, no meio de uma partida, de repente parece "desconectar" por alguns segundos. Não cai, não convulsiona de forma visível, mas algo ali não está certo.

Foi o que aconteceu recentemente com Jamal Musiala, meio-campista do Bayern de Munique, que passou por episódios semelhantes durante partidas e, posteriormente, revelou publicamente o diagnóstico por trás deles.


Casos como esse, quando ganham repercussão pública, ajudam a levantar uma pergunta importante: o que exatamente acontece nesses episódios?


Em muitos casos, a resposta está em um tipo específico de crise epiléptica, conhecida como crise de ausência. Pouco compreendida e frequentemente confundida com distração ou cansaço, ela merece ser explicada com mais clareza.


O que é uma crise de ausência


A crise de ausência é um tipo de crise epiléptica caracterizada por uma breve interrupção da consciência. Diferente da imagem mais popular de uma crise convulsiva, com quedas e movimentos intensos, ela pode se manifestar de forma muito mais sutil.


Durante o episódio, a pessoa pode parecer "ausente", com o olhar fixo, sem responder a estímulos por alguns segundos. Em alguns casos, pequenos movimentos automáticos, como piscar repetidamente, também podem estar presentes.


Justamente por sua discrição, esse tipo de crise pode ser confundido com um momento de desatenção, principalmente quando ocorre em situações de alta exigência física ou mental, como durante uma atividade esportiva.


Por que isso acontece


As crises de ausência estão relacionadas a uma atividade elétrica anormal e temporária no cérebro. Essa alteração interrompe, por um curto período, a comunicação normal entre diferentes áreas cerebrais responsáveis pela consciência.


Elas fazem parte do espectro das epilepsias, um grupo de condições neurológicas caracterizadas pela tendência a apresentar crises recorrentes, decorrentes dessa atividade elétrica desorganizada no cérebro.


É importante destacar que a presença de crises de ausência não significa, por si só, um quadro grave ou irreversível. Muitas formas desse tipo de crise são consideradas de bom prognóstico, especialmente quando identificadas e tratadas de maneira adequada.


Como os episódios costumam se manifestar


Um dos aspectos mais característicos das crises de ausência é a duração curta, geralmente poucos segundos, seguida por uma recuperação rápida e completa da consciência.


Depois do episódio, muitas vezes a pessoa não percebe que algo aconteceu, e retoma a atividade que estava realizando como se nada tivesse ocorrido. Esse detalhe é um dos motivos pelos quais o diagnóstico pode demorar a ser feito: os sinais são breves e podem ser interpretados como distração, cansaço ou até mesmo comportamento intencional.


Em contextos de alto desempenho físico, como competições esportivas, esses episódios podem se tornar mais evidentes justamente pelo impacto imediato que causam na coordenação e na resposta motora da pessoa naquele instante — como parece ter sido o caso de Musiala, que chegou a apresentar episódios desse tipo durante jogos pelo Bayern.



Diagnóstico e tratamento


O diagnóstico das crises de ausência costuma envolver avaliação neurológica detalhada, incluindo exames como o eletroencefalograma, capaz de identificar os padrões elétricos característicos desse tipo de crise.


Uma vez diagnosticadas, essas crises fazem parte de um grupo de condições neurológicas frequentemente descritas como tratáveis, o que significa que, com acompanhamento adequado e uso de medicação específica, muitas pessoas conseguem um controle significativo dos episódios.


Foi justamente esse o tom da declaração pública de Musiala: segundo o próprio atleta, o quadro foi descrito como tratável e sem risco adicional à sua saúde, e ele optou por manter a rotina esportiva sob acompanhamento médico especializado.


Por que entender isso importa


Casos como esse ajudam a colocar luz sobre uma condição que, apesar de relativamente comum, ainda carrega desinformação. Reconhecer os sinais de uma crise de ausência pode acelerar a busca por avaliação neurológica, tanto em atletas quanto na população em geral.


Também ajuda a desfazer a ideia de que toda crise epiléptica precisa ser dramática ou visível à distância. Muitas vezes, o sinal mais importante é justamente a sutileza do episódio.


Conclusão


As crises de ausência são um lembrete de que nem toda alteração neurológica se manifesta de forma evidente. Breves, silenciosas e facilmente confundidas com desatenção, elas exigem olhar atento e avaliação especializada para serem corretamente identificadas.


Quando reconhecidas a tempo, no entanto, costumam responder bem ao tratamento — permitindo que quem convive com essa condição mantenha sua rotina, inclusive em atividades de alta exigência física, com segurança e acompanhamento adequado, como o próprio caso de Musiala ilustra.





 
 
 

Comentários


Neurologista - CRM 26635 - RQE 15534

CONTATO
(31) 3213-3022  |  (31) 99917-3022
Av. Professor Alfredo Balena, 189 SL 1708
Santa Efigênia,  Belo Horizonte - MG.
  • Instagram
© 2024 Site Dr. Paulo Christo   |   Todos os direitos reservados   |    DNZ Digital Criação de Sites
bottom of page