8 em cada 10 idosos com demência no Brasil não sabem que têm a doença
- Priscila Emery
- há 4 horas
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Um esquecimento aqui, uma dificuldade ali para lembrar um nome. Para muitas famílias, esses sinais em um idoso são vistos como parte natural do envelhecimento, algo que não precisa ser levado ao médico.
Essa interpretação, no entanto, pode esconder um quadro de demência que já está instalado, mas que ninguém percebeu ainda.
Um estudo internacional recente se debruçou justamente sobre essa questão: quantos idosos convivem com demência sem sequer saber disso. Os números encontrados surpreendem, especialmente quando o Brasil entra na comparação.
Entender por que isso acontece ajuda a explicar por que tantas famílias só procuram ajuda quando a doença já está em um estágio mais avançado.
O que os pesquisadores queriam descobrir sobre a demência não diagnosticada
O estudo foi conduzido por uma equipe liderada pelo Dr. Márlon Aliberti, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), do Hospital Sírio-Libanês e da Johns Hopkins University, nos Estados Unidos, com resultados publicados em abril deste ano na revista científica Alzheimer's & Dementia.
A pesquisa analisou dados de duas grandes coortes populacionais sobre envelhecimento: o Health and Retirement Study (HRS), dos Estados Unidos, e o Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil). Ambas fazem parte de uma rede internacional de estudos que utiliza medidas comparáveis e harmonizadas entre os países, o que torna a comparação mais confiável.
Foram incluídos na análise 9.539 idosos norte-americanos e 3.603 idosos brasileiros, todos com 65 anos ou mais.
Os pesquisadores definiram demência não diagnosticada como a presença de comprometimento cognitivo em nível de demência, identificado por testes cognitivos objetivos ou pelo relato de um familiar ou cuidador, mas sem que a pessoa tivesse recebido um diagnóstico clínico formal da doença.
Além de medir a frequência desse cenário, o estudo investigou quais fatores estavam associados à falta de diagnóstico, como características sociodemográficas, comorbidades, condições geriátricas e o acesso a serviços de saúde. Também foi avaliado o risco de morte ao longo de quatro anos de acompanhamento, entre 2016 e 2020.
Quantos idosos convivem com demência sem saber
Os resultados mostram uma lacuna diagnóstica expressiva nos dois países, ainda que em intensidades muito diferentes.
Na coorte americana, entre os participantes com algum grau de comprometimento cognitivo compatível com demência, 45,1% não tinham diagnóstico clínico da doença. No Brasil, essa proporção foi de 76,1%, ou seja, mais de três em cada quatro idosos com demência no país desconheciam a própria condição.
Em números absolutos, dos 9.539 participantes americanos, 494 apresentaram demência não diagnosticada e 635 já tinham diagnóstico. No Brasil, dos 3.603 participantes, 261 estavam na situação de demência não diagnosticada e apenas 71 possuíam diagnóstico formal.
A diferença entre os dois países já chama atenção, mas o estudo revelou outro dado importante: essa lacuna não se distribui de forma uniforme dentro do próprio Brasil.
Por que a demência não diagnosticada varia tanto entre regiões
Quando os pesquisadores olharam para as diferentes regiões brasileiras, a proporção de demência não diagnosticada chegou a 85,9% no Norte e no Nordeste do país. Nas regiões Sudeste e Sul, esse percentual foi de 68,2%, ainda alto, mas visivelmente menor.
Nos Estados Unidos, essa variação regional foi bem mais discreta, oscilando entre 42,2% e 46,6%.
Os pesquisadores identificaram fatores associados à demência não diagnosticada que eram específicos de cada país. Nos Estados Unidos, fragilidade física e deficiência auditiva estiveram associadas a uma maior chance de a demência passar despercebida.
No Brasil, os fatores associados foram outros: etnia asiática ou indígena, menor escolaridade, residir em área rural e menor utilização de cuidados especializados em saúde. Para os autores do estudo, esse padrão indica que a lacuna diagnóstica no país está marcada por desigualdades socioeconômicas e de acesso à saúde.
Um achado comum às duas coortes chama atenção: em ambos os países, a demência não diagnosticada esteve associada a idade mais jovem entre os idosos e à ausência de queixas de memória relatadas pela própria pessoa ou por familiares. Ou seja, quando não há uma queixa espontânea de esquecimento, a doença tende a passar mais despercebida, mesmo já estando presente.
O que a falta de diagnóstico significa na prática
Um dos achados mais relevantes do estudo diz respeito ao risco de morte. Em ambos os países, os idosos com demência não diagnosticada apresentaram maior risco de mortalidade ao longo dos quatro anos de acompanhamento, quando comparados aos idosos sem a doença.
Isso reforça que a ausência de diagnóstico não é apenas uma questão formal ou burocrática. Sem saber que convive com demência, a pessoa e sua família deixam de adaptar a rotina, de buscar acompanhamento especializado e de considerar cuidados que poderiam fazer diferença na segurança e na qualidade de vida do idoso.
No caso do Brasil, os dados sugerem que essa lacuna diagnóstica tem raízes que vão além da própria doença. Menor escolaridade, residir longe de grandes centros urbanos e ter menos acesso a cuidados especializados aparecem como fatores associados a esse cenário, o que aponta para desigualdades estruturais no acesso à saúde, e não apenas para uma dificuldade médica de reconhecer os sinais da doença.
O que esses dados ensinam sobre a demência não diagnosticada
O estudo mostra que a demência não diagnosticada é um problema relevante tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, mas que aqui ele é significativamente maior, sobretudo nas regiões Norte e Nordeste do país.
Esquecimentos que não vêm acompanhados de queixa espontânea, especialmente em idosos mais jovens, parecem ser um dos motivos pelos quais a doença passa despercebida com mais frequência.
A reflexão prática que fica é que sinais de comprometimento cognitivo em idosos, mesmo quando a própria pessoa não reclama de memória, merecem ser levados a uma avaliação médica. Reconhecer a demência a tempo não muda apenas o nome dado à condição: os dados sugerem que também pode estar associado a diferenças relevantes na segurança e no cuidado oferecido ao longo dos anos seguintes.



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