Menopausa pode acelerar a perda de volume cerebral na esclerose múltipla?
- Priscila Emery
- há 1 dia
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A menopausa costuma ser discutida por seus efeitos mais conhecidos: ondas de calor, alterações do sono, mudanças de humor. Para mulheres com esclerose múltipla, porém, uma pergunta menos comentada começa a ganhar espaço na pesquisa científica.
Será que essa transição hormonal também deixa marcas no cérebro, além dos sintomas já esperados da menopausa?
Um estudo apresentado em um dos principais congressos internacionais de esclerose múltipla buscou justamente essa resposta, acompanhando o cérebro de mulheres com a doença antes e depois da menopausa.
Os achados apontam para uma janela de tempo que merece atenção redobrada.
O que a pesquisa investigou
Os resultados foram apresentados no Congresso ECTRIMS 2025 (European Committee for Treatment and Research in Multiple Sclerosis), realizado em Barcelona, na Espanha, entre 24 e 26 de setembro daquele ano.
Pesquisadores conduziram um estudo prospectivo e longitudinal, ou seja, acompanharam as mesmas participantes ao longo do tempo, com avaliações repetidas. Ao todo, foram analisadas 1.282 ressonâncias magnéticas cerebrais anuais de 179 mulheres cisgênero com esclerose múltipla, colhidas antes e depois da menopausa.
A equipe mediu o volume de diferentes estruturas cerebrais. De um lado, avaliaram regiões já conhecidas por sofrerem neurodegeneração na esclerose múltipla, como a substância cinzenta global, o corpo caloso e o tálamo. De outro, analisaram estruturas associadas à cognição e à menopausa, como o hipocampo, o córtex pré-frontal dorsolateral, a amígdala e o giro do cíngulo anterior.
A idade mediana da menopausa espontânea entre as participantes foi de 51 anos, e 23% delas faziam uso de terapia de reposição hormonal sistêmica. As análises estatísticas levaram em conta fatores como idade, tempo de doença, uso de tratamentos para esclerose múltipla, índice de massa corporal, tabagismo e o próprio uso de reposição hormonal.
O que acontece no cérebro após a menopausa
Os pesquisadores observaram que, após a menopausa, a velocidade de perda de volume se acelerou em algumas regiões específicas do cérebro.
Isso ocorreu na substância cinzenta global, no hipocampo esquerdo e no giro do cíngulo anterior esquerdo, tanto em sua porção caudal quanto rostral. Em outras palavras, essas áreas passaram a perder volume mais rapidamente depois da transição menopáusica do que vinham perdendo antes dela.
Por outro lado, uma estrutura específica, a porção médio-posterior do corpo caloso, apresentou o comportamento oposto: a velocidade de perda de volume nessa região diminuiu após a menopausa. Nenhuma outra estrutura avaliada, como o tálamo, o hipocampo direito, o córtex pré-frontal dorsolateral e a amígdala, mostrou mudança estatisticamente significativa na velocidade de perda de volume associada à menopausa.
Por que essas áreas específicas do cérebro chamam atenção
O padrão encontrado chamou a atenção dos próprios pesquisadores. As estruturas que mais sofreram aceleração na perda de volume, como o hipocampo e o giro do cíngulo anterior, estão diretamente relacionadas à memória, à regulação emocional e a outros aspectos da cognição, sendo também estruturas sensíveis a alterações hormonais.
Já o tálamo e o corpo caloso, regiões classicamente associadas à progressão da esclerose múltipla em si, não apresentaram o mesmo padrão de aceleração. O corpo caloso, inclusive, mostrou o comportamento inverso.
Segundo os autores, esse contraste sugere que a menopausa pode representar um período de maior vulnerabilidade hormonal para estruturas cerebrais ligadas à cognição, de forma distinta do processo neurodegenerativo já conhecido e associado diretamente à esclerose múltipla. Ou seja, os dados indicam que a menopausa pode adicionar uma camada própria de risco ao cérebro dessas mulheres, além dos mecanismos já estudados da doença.
É importante destacar que os resultados foram apresentados em um congresso científico e refletem uma associação identificada em um grupo específico de participantes. Eles não permitem afirmar, de forma definitiva, que a menopausa causa esse padrão de perda de volume, apenas que os dois eventos aparecem conectados nesta análise.
O que isso pode significar na prática
Os próprios pesquisadores destacam que a transição menopáusica representa uma janela relevante para avaliar mudanças cerebrais relacionadas a hormônios e sua relação com a cognição no período pós-menopausa.
Na prática, isso reforça a importância de conversas específicas entre mulheres com esclerose múltipla e suas equipes médicas quando a menopausa se aproxima. Sintomas cognitivos que surgem ou se intensificam nessa fase, como maior dificuldade de memória ou de concentração, não devem ser automaticamente atribuídos apenas ao envelhecimento ou descartados como algo esperado.
Esse período também pode ser uma oportunidade para discutir, junto ao médico, estratégias de acompanhamento cognitivo e a própria decisão sobre terapia de reposição hormonal, sempre de forma individualizada e considerando o quadro clínico de cada mulher.
O que esses dados ensinam sobre esclerose múltipla e menopausa
O estudo reforça que a menopausa não é apenas uma transição hormonal isolada para mulheres com esclerose múltipla. Os dados sugerem que ela pode se associar a uma aceleração da perda de volume em regiões cerebrais ligadas à memória e à cognição, um padrão distinto do processo neurodegenerativo típico da própria doença.
Essa distinção é o que torna o achado relevante: sugere que existe algo específico acontecendo durante a menopausa, e não apenas a continuidade do curso natural da esclerose múltipla.
A reflexão prática que fica é que a menopausa merece ser tratada como um momento de atenção adicional na jornada de mulheres com esclerose múltipla, com espaço para conversar sobre memória, concentração e bem-estar cognitivo, e não apenas sobre os sintomas hormonais mais tradicionalmente associados a essa fase da vida.



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