top of page

Esclerose múltipla aumenta o risco de depressão e ansiedade após o parto?

  • Foto do escritor: Priscila Emery
    Priscila Emery
  • há 16 minutos
  • 4 min de leitura

Estudo associa esclerose múltipla a maior risco de depressão e ansiedade durante a gravidez e o primeiro ano após o parto
Estudo associa esclerose múltipla a maior risco de depressão e ansiedade durante a gravidez e o primeiro ano após o parto

A chegada de um filho costuma vir acompanhada de expectativas grandes: sobre a rotina, sobre o corpo, sobre os próprios sentimentos. Para mulheres com esclerose múltipla, essa fase carrega uma camada a mais de atenção.


Muitas se perguntam como a doença vai se comportar durante a gravidez e o que muda depois que o bebê nasce. A preocupação, no entanto, quase sempre recai sobre os sintomas neurológicos, como possíveis crises ou alterações motoras.


Há, porém, um aspecto que recebe menos atenção nessas conversas: a saúde mental. E é justamente sobre isso que uma pesquisa recente traz dados relevantes.


Os resultados ajudam a entender por que o período que envolve a gravidez e o pós-parto merece um olhar mais cuidadoso para mulheres com esclerose múltipla.


O que a pesquisa buscou entender


O estudo, conduzido por pesquisadores da Dalhousie University, no Canadá, e publicado na revista científica Neurology, utilizou dados de saúde de base populacional para acompanhar mães com diferentes condições crônicas.


Foram incluídas mulheres com esclerose múltipla, epilepsia, doença inflamatória intestinal e diabetes, além de um grande grupo de comparação formado por mães sem nenhuma dessas doenças. Todas tiveram um parto entre 2002 e 2017.


Ao todo, os pesquisadores analisaram dados de quase 900 mil mães, sendo 1.745 delas com diagnóstico de esclerose múltipla. A partir desses registros, foi possível estimar a incidência e a prevalência de doenças de saúde mental durante a gestação e ao longo dos três anos seguintes ao parto.


O objetivo central era comparar o que acontece com a saúde mental de mães com esclerose múltipla em relação às mães sem doenças crônicas, tanto durante a gravidez quanto no período posterior ao nascimento do bebê.


O que os dados mostram sobre o período da gravidez e do pós-parto


Entre as mães com esclerose múltipla, 8,4% apresentaram algum quadro novo de doença de saúde mental durante a gestação. Esse percentual subiu para 14,2% já no primeiro ano após o parto.


Depressão e ansiedade foram, disparadamente, os quadros mais comuns identificados nesse grupo.


Os pesquisadores também observaram que o primeiro ano após o parto representa um período de risco mais elevado do que a própria gestação. Comparado à gravidez, o risco de um novo diagnóstico de saúde mental no pós-parto foi 27% maior entre as mães com esclerose múltipla.


Além dos casos novos, os dados de prevalência chamam atenção: praticamente 42% das mães com esclerose múltipla já apresentavam algum quadro de saúde mental durante a gravidez. Esse número passou de 50% no primeiro ano após o parto.


Ou seja, ao considerar tanto os casos já existentes quanto os novos diagnósticos, a saúde mental afetou metade das mães com esclerose múltipla no primeiro ano de vida do bebê.


Por que mulheres com esclerose múltipla apresentam risco maior


Quando comparadas às mães sem doenças crônicas, as mães com esclerose múltipla apresentaram uma incidência de doenças de saúde mental 26% maior durante a gravidez e 33% maior no primeiro ano pós-parto.


Os pesquisadores identificaram esse risco aumentado para praticamente todos os quadros específicos de saúde mental avaliados durante a gestação, com uma única exceção: tentativas de suicídio, que não apresentaram diferença estatística entre os grupos.


Esses achados sugerem que conviver com uma doença neurológica crônica como a esclerose múltipla está associado a uma sobrecarga emocional adicional justamente no período em que o corpo, a rotina e a identidade da mulher passam por transformações intensas. A incerteza sobre o curso da doença, o cansaço físico e as mudanças hormonais próprias da gravidez e do pós-parto podem se somar, tornando esse momento particularmente sensível.


É importante destacar que os dados mostram uma associação, não uma relação direta de causa e efeito. O estudo não teve como objetivo explicar todos os mecanismos por trás desse risco aumentado, apenas demonstrar, com uma base de dados robusta, que ele existe e é consistente.


O que muda na prática para mães com esclerose múltipla


Os próprios autores do estudo destacam um ponto prático importante: diante desses números, médicos que acompanham mulheres com esclerose múltipla durante a gravidez e o pós-parto devem estar atentos a esse risco elevado.


Isso significa garantir que o rastreamento de sintomas de depressão e ansiedade aconteça de forma rotineira nesse período, e não apenas quando a paciente relata espontaneamente uma queixa emocional. Também significa oferecer tratamento adequado assim que um quadro é identificado.


Os pesquisadores reforçam ainda a necessidade de mais atenção a estratégias preventivas, e não apenas ao tratamento depois que os sintomas já se instalaram. Isso pode incluir conversas antecipadas sobre saúde mental já durante o pré-natal, além de suporte contínuo ao longo do primeiro ano de vida do bebê.


Para as famílias, esse dado também tem valor prático. Saber que o risco de depressão e ansiedade é maior nesse contexto ajuda a legitimar sentimentos que, muitas vezes, são minimizados como "cansaço normal de mãe de primeira viagem" ou atribuídos apenas às oscilações hormonais esperadas.


O que esses dados ensinam sobre esclerose múltipla, gravidez e saúde mental


A pesquisa mostra que a saúde mental de mães com esclerose múltipla merece a mesma atenção dedicada aos sintomas neurológicos da doença durante a gravidez e o pós-parto.

Os números são claros: quase metade dessas mulheres convive com algum quadro de saúde mental já na gestação, e esse percentual ultrapassa a metade no primeiro ano após o parto, sendo a depressão e a ansiedade os diagnósticos mais frequentes.


A reflexão prática que fica é simples, mas relevante: sintomas emocionais durante a gravidez ou o pós-parto não devem ser vistos como parte inevitável dessa fase da vida. Para mulheres com esclerose múltipla, eles merecem ser conversados abertamente com a equipe médica, com a mesma naturalidade reservada aos demais aspectos da doença.


 
 
 

Comentários


Neurologista - CRM 26635 - RQE 15534

CONTATO
(31) 3213-3022  |  (31) 99917-3022
Av. Professor Alfredo Balena, 189 SL 1708
Santa Efigênia,  Belo Horizonte - MG.
  • Instagram
© 2024 Site Dr. Paulo Christo   |   Todos os direitos reservados   |    DNZ Digital Criação de Sites
bottom of page