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Atividade física ao longo da vida pode reduzir o risco de demência?

Foto do escritor: Priscila Emery
Priscila Emery
há 9 minutos
5 min de leitura
Atividade física mantida ao longo da vida adulta é associada a menor risco de demência e reforça a ligação entre movimento e saúde do cérebro.
Atividade física mantida ao longo da vida adulta é associada a menor risco de demência e reforça a ligação entre movimento e saúde do cérebro.

Todo mundo já ouviu que exercício faz bem ao coração. Cada vez mais, porém, as pesquisas também olham para outro órgão: o cérebro.


A relação entre atividade física e demência já aparece há anos na literatura científica. Mas boa parte desse conhecimento vinha de pesquisas com acompanhamento curto ou com uma única medida de atividade física, feita em um só momento da vida.


Sobrou então uma pergunta importante: o que acontece com quem se mantém ativo por décadas?


Uma pesquisa publicada na revista The Lancet Public Health acompanhou mais de 100 mil pessoas por até 37 anos para tentar responder.


Por que acompanhar a atividade física por tanto tempo?


A demência se desenvolve devagar. As mudanças no cérebro podem começar muitos anos antes de qualquer sintoma.


Por isso, medir a atividade física uma vez só e ver quem desenvolve demência anos depois traz limitações. As pessoas mudam de hábitos ao longo da vida: algumas ficam mais ativas, outras param de se exercitar.


Há outra dificuldade. Quem já está no início de um declínio cognitivo pode, sem perceber, se tornar menos ativo. Nesse caso, seria a doença levando ao sedentarismo, e não o contrário.


Os pesquisadores tomaram cuidados para reduzir esses problemas, como você verá a seguir.


Como a pesquisa foi feita


A análise reuniu participantes de dois grandes grupos de acompanhamento nos Estados Unidos, formados por profissionais de saúde:

  • Nurses' Health Study, com enfermeiras

  • Health Professionals Follow-Up Study, com outros profissionais de saúde


A partir de 1986, a atividade física foi avaliada a cada dois a quatro anos com questionários validados. Os pesquisadores registraram:

  • a atividade física total

  • as caminhadas

  • os exercícios aeróbicos vigorosos

  • a musculação


Pessoas que já tinham demência, AVC, câncer ou dificuldade para caminhar no início foram excluídas.


Os pesquisadores também aplicaram um intervalo de quatro anos entre a medida da atividade física e a contagem dos casos de demência. Assim, ficou menos provável que um declínio cognitivo inicial, ainda não diagnosticado, tivesse reduzido a atividade física e distorcido os resultados.


Ao todo, cerca de 107 mil pessoas entraram na análise sobre demência. Ao longo de até 37 anos de acompanhamento, foram registrados 10.695 novos casos.


O que os resultados mostram sobre atividade física e demência


Os participantes foram divididos em quatro grupos, do menos ativo ao mais ativo.

Quem estava no grupo mais ativo teve um risco de demência cerca de 28% menor do que quem estava no grupo menos ativo.


A associação também apareceu quando os pesquisadores olharam para cada tipo de atividade:

  • Caminhada: quem caminhava mais teve um risco de demência cerca de 24% menor.

  • Exercício aeróbico vigoroso: quem fazia mais exercício intenso teve um risco cerca de 11% menor.

  • Musculação: quem fazia mais de meia hora por semana teve um risco cerca de 13% menor do que quem não fazia.


O padrão se manteve quando os pesquisadores repetiram as análises de outras formas, o que reforça a consistência dos achados.


A atividade física também foi associada a um cérebro mais preservado


A pesquisa não olhou só para o diagnóstico de demência. Parte dos participantes também fez testes de memória e raciocínio.


Os mais ativos tiveram um desempenho que corresponde a menos tempo de envelhecimento cognitivo. Em média, foi como se o cérebro deles tivesse:

  • cerca de 1,2 ano a menos de declínio na cognição de modo geral

  • cerca de 1,3 ano a menos de declínio na memória verbal, ou seja, a capacidade de lembrar palavras e informações


Os exercícios aeróbicos vigorosos mostraram resultados parecidos.


A caminhada, porém, não teve uma associação própria com o desempenho nos testes depois que os pesquisadores consideraram outros fatores de saúde e estilo de vida. Esse detalhe mostra que tipos diferentes de atividade podem se relacionar com a saúde do cérebro de formas diferentes.


Menos queixas de memória no dia a dia


Muita gente percebe, antes de qualquer diagnóstico, que a memória "já não é a mesma". Esses esquecimentos percebidos pela própria pessoa são chamados de declínio cognitivo subjetivo.


Os mais ativos relataram menos esse tipo de queixa. O risco de declínio cognitivo subjetivo foi:

  • cerca de 23% menor no grupo mais ativo como um todo

  • cerca de 18% menor entre quem caminhava mais

  • cerca de 11% menor entre quem fazia mais exercício vigoroso


O ritmo da caminhada também importa


Um achado prático chamou atenção: a velocidade da caminhada.


Quem disse caminhar em ritmo rápido ou muito rápido teve melhor desempenho cognitivo e menos queixas de memória do que quem caminhava em ritmo médio.


Isso sugere que não conta só o tempo de caminhada. A intensidade com que ela é feita também pode fazer diferença.


Por que é preciso cautela


Os resultados são consistentes, mas devem ser lidos com cuidado.


Trata-se de uma pesquisa observacional. Ela mostra associações entre atividade física e demência, mas não prova que o exercício, sozinho, reduz o risco, mesmo com muitos ajustes para outros fatores.


Também vale notar que os mais ativos tinham, em geral, um perfil de saúde mais favorável desde o início. Eles tinham menos pressão alta, diabetes, colesterol alto e tabagismo, e menor peso corporal. Esse conjunto de hábitos pode contribuir para os resultados.


Os autores apontaram ainda outras limitações:

  • A atividade física foi relatada pelos próprios participantes, e não medida por aparelhos.

  • A maioria dos participantes era formada por profissionais de saúde brancos, o que pode limitar a aplicação dos resultados a outras populações.


O que isso muda na prática


Mesmo com essas ressalvas, os achados reforçam uma mensagem importante: manter-se ativo ao longo da vida adulta pode ser uma das formas de proteger o cérebro.


Alguns pontos se destacam:

  • A constância parece importar. Os benefícios foram observados em quem manteve a atividade física ao longo de décadas, e não em momentos isolados.

  • A variedade também conta. Caminhada, exercícios aeróbicos e musculação foram todos associados a um menor risco de demência.

  • A intensidade pode fazer diferença. Caminhar em ritmo mais rápido foi associado a melhores resultados cognitivos.


Os autores concluíram que os resultados apoiam os possíveis benefícios de manter diferentes formas de atividade física ao longo da vida adulta. Eles também destacaram que ainda são necessárias novas pesquisas para definir recomendações mais específicas para cada tipo de atividade.


Conclusão


Manter níveis mais altos de atividade física ao longo de décadas foi associado a menor risco de demência, melhor desempenho cognitivo e menos queixas de memória.


A atividade física não é uma garantia contra a demência, e a pesquisa não prova causa e efeito. Mas ela aparece de forma consistente como um dos fatores ligados a um envelhecimento cerebral mais saudável.


A reflexão que fica é simples: cuidar do cérebro não depende de um gesto isolado. Depende, em boa parte, dos hábitos que escolhemos manter ao longo da vida.



 
 
 

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