Enxaqueca com aura aumenta o risco de AVC em idosos?

A enxaqueca costuma ser associada a fases mais jovens da vida. Muita gente pressupõe que, com o passar dos anos, ela deixa de importar tanto para a saúde do cérebro.
Mas será que essa relação realmente desaparece com a idade? E, mais especificamente, existe diferença entre quem tem enxaqueca com aura e quem tem enxaqueca sem aura quando o assunto é risco vascular?
Um levantamento publicado na revista Neurology Open Access, conduzido com dados do estudo REGARDS, foi desenhado justamente para responder a essas perguntas em adultos de meia-idade e idosos.
Os resultados trazem uma resposta mais específica do que se poderia esperar — e apontam para um grupo em particular que merece atenção redobrada.
O que a pesquisa avaliou
A análise incluiu 11.381 participantes com 45 anos ou mais, sem histórico prévio de AVC. O histórico de enxaqueca foi avaliado entre 2013 e 2016, e os participantes foram acompanhados até setembro de 2022 para identificar a ocorrência de AVC isquêmico.
A idade média da coorte era de 72,1 anos. Do total, 1.130 pessoas relataram histórico de enxaqueca: 491 com aura e 639 sem aura. Os pesquisadores usaram modelos estatísticos para estimar o risco de AVC, ajustando os resultados por fatores demográficos, socioeconômicos e por outros fatores de risco cardiovascular já conhecidos.
O que os dados mostraram sobre enxaqueca e AVC
Ao longo de um acompanhamento médio de 6,4 anos, 395 participantes tiveram um AVC isquêmico.
Quando a enxaqueca foi analisada de forma geral, sem separar por presença de aura, não houve associação estatisticamente significativa com o risco de AVC. Ou seja, ter enxaqueca, isoladamente, não foi suficiente para elevar o risco de forma consistente nessa faixa etária.
O cenário mudou quando os pesquisadores olharam especificamente para quem tem aura. Nesse grupo, o risco de AVC isquêmico foi cerca de 73% maior em comparação a quem não tinha enxaqueca. Já entre os participantes com enxaqueca sem aura, não foi observada associação significativa com o risco de AVC.
Esse padrão reforça uma diferença que já vinha sendo discutida em adultos mais jovens: a aura parece ser o elemento que muda o peso da enxaqueca sobre o risco vascular, mais do que a enxaqueca em si.
Por que homens com menos de 72 anos chamam atenção
Um dos achados mais chamativos surgiu quando os pesquisadores analisaram subgrupos por idade e sexo. Isoladamente, nem idade, nem sexo, nem raça mostraram uma interação estatisticamente significativa com o risco de AVC ligado à enxaqueca.
Ainda assim, análises exploratórias apontaram que homens com menos de 72 anos concentravam o maior risco. Nesse subgrupo, ter enxaqueca — considerando o grupo geral — esteve associada a um risco mais de três vezes maior de AVC isquêmico. O padrão se repetiu tanto para quem tinha aura quanto para quem não tinha, com aumentos de risco semelhantes entre os dois grupos.
Entre mulheres e entre homens com 72 anos ou mais, esse aumento de risco não foi observado.
Os próprios autores do estudo destacam que, por se tratar de uma análise exploratória, esse achado precisa ser confirmado por outras pesquisas antes de gerar conclusões definitivas. Mas, segundo eles, se confirmado, o resultado sugere "uma necessidade crescente de rastrear enxaqueca e fornecer aconselhamento a homens adultos".
O que muda na prática
Os pesquisadores reconhecem algumas limitações importantes. O diagnóstico de enxaqueca foi autorrelatado, o que pode levar a classificações incorretas sobre a presença ou ausência de aura. Também faltaram informações completas sobre o subtipo de AVC, e não é possível descartar totalmente a influência de outros fatores não medidos no estudo.
Mesmo com essas ressalvas, os dados reforçam um ponto relevante: a aura parece ser a característica da enxaqueca que mais se relaciona ao risco vascular ao longo da vida, e não a enxaqueca de forma genérica. Isso ajuda a entender por que perguntar sobre a presença de aura, e não apenas sobre a existência de enxaqueca, pode ser uma informação clinicamente útil, especialmente em homens de meia-idade.
A enxaqueca com aura, e não a enxaqueca em geral, esteve associada a um risco maior de AVC isquêmico em adultos de meia-idade e idosos, com o achado mais expressivo entre homens com menos de 72 anos. A enxaqueca sem aura, nesse levantamento, não mostrou o mesmo padrão.
Esses achados reforçam a importância de investigar não apenas a presença de enxaqueca, mas também suas características, como um dado que pode ajudar a entender melhor o risco vascular individual ao longo da vida.



Comentários