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Enxaqueca e dor de cabeça afetam 1 em cada 3 pessoas no mundo, aponta estudo global

  • Foto do escritor: Priscila Emery
    Priscila Emery
  • há 3 dias
  • 4 min de leitura
Carga global da enxaqueca e das dores de cabeça reforça a necessidade de mais atenção ao diagnóstico e ao uso consciente de medicação para dor.
Carga global da enxaqueca e das dores de cabeça reforça a necessidade de mais atenção ao diagnóstico e ao uso consciente de medicação para dor.

Quase todo mundo já teve uma dor de cabeça capaz de atrapalhar o dia inteiro. Para muitas pessoas, porém, essa não é uma experiência rara: é uma companhia frequente, que interfere no trabalho, no sono e na vida social.


Um novo levantamento internacional tentou medir exatamente o tamanho desse problema, e o resultado surpreende pela escala.


Os dados vêm do Global Burden of Disease 2023, um dos maiores estudos de saúde do mundo, publicado na revista científica Lancet Neurology em novembro. Eles ajudam a entender por que as dores de cabeça, incluindo a enxaqueca, merecem mais atenção do que costumam receber, tanto de quem convive com elas quanto de quem as trata.


O que os dados mostram sobre a carga global das dores de cabeça


Segundo a pesquisa, os distúrbios de dor de cabeça afetam 2,9 bilhões de pessoas no mundo, quase 1 em cada 3 pessoas. Em 2023, essas condições ocuparam a sexta posição entre todas as causas de perda de saúde no planeta.


Para chegar a esse resultado, os pesquisadores utilizaram um indicador chamado anos vividos com incapacidade, que mede o tempo em que uma pessoa vive com uma condição que limita suas atividades diárias e seu bem-estar. Quanto maior esse número, maior o impacto da doença na vida das pessoas ao longo do tempo.


Um dado chama atenção: nos últimos 30 anos, não houve mudança relevante na carga global das dores de cabeça. Para os autores do estudo, isso sugere que as causas de fundo desse problema ainda não foram devidamente enfrentadas.


Por que a enxaqueca causa tanto impacto, mesmo sendo menos comum


Um dos achados mais importantes da pesquisa é a diferença entre frequência e impacto.

A dor de cabeça do tipo tensional é quase duas vezes mais comum do que a enxaqueca. Ainda assim, a enxaqueca foi responsável por cerca de 90% de toda a incapacidade relacionada às dores de cabeça.


Essa diferença reflete a intensidade das crises. Os episódios de enxaqueca tendem a ser mais graves e mais limitantes do que as dores de cabeça tensionais, o que explica por que uma condição menos frequente concentra a maior parte do impacto na vida das pessoas.


Em números, a enxaqueca foi responsável por 40,9 milhões de anos vividos com incapacidade no mundo em 2023, numa taxa de 487,5 casos a cada 100 mil pessoas. Já a dor de cabeça tensional, apesar de mais frequente, respondeu por uma taxa bem menor, de 54,4 a cada 100 mil pessoas, o que confirma que a intensidade das crises pesa mais do que a frequência na hora de medir o impacto real de cada tipo de dor de cabeça.


As regiões com maior impacto relacionado à enxaqueca foram o Norte da África e o Oriente Médio, seguidas de perto por regiões de alta renda, como Europa e América do Norte.


Mulheres sofrem mais: o que os números revelam


A pesquisa identificou uma diferença expressiva entre homens e mulheres.


As mulheres apresentaram uma perda de saúde relacionada à dor de cabeça mais do que duas vezes maior que a dos homens. Esse padrão se repetiu em todas as faixas etárias analisadas: em qualquer idade, as mulheres passaram mais tempo convivendo com sintomas de dor de cabeça do que os homens.


Yvonne Xu, do Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde da Universidade de Washington e coautora da pesquisa, afirmou que reconhecer essa diferença é essencial para melhorar a forma como as dores de cabeça são prevenidas e tratadas em todo o mundo.


Uso excessivo de medicação: um fator evitável


Um dos pontos mais relevantes da pesquisa diz respeito ao papel dos próprios medicamentos usados para aliviar a dor.


Mais de um quinto de toda a carga global de dor de cabeça foi associado à cefaleia por uso excessivo de medicamentos, uma condição em que o uso repetido e frequente de remédios para dor acaba piorando o quadro de dor de cabeça já existente.


Andreas Kattem Husøy, da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia e principal autor da pesquisa, destacou que esse dado sugere que boa parte da carga global de dor de cabeça é evitável. Segundo os pesquisadores, o achado reforça a importância de conscientizar tanto pacientes quanto profissionais de saúde sobre os riscos do uso frequente de medicação para dor, incluindo os analgésicos vendidos sem prescrição médica.


Os dados do Global Burden of Disease 2023 mostram que as dores de cabeça, especialmente a enxaqueca, representam um dos problemas de saúde mais frequentes e mais subestimados do mundo. Afetam quase um terço da população, atingem as mulheres de forma desproporcional e, em parte, estão ligadas a um fator que pode ser trabalhado: o uso excessivo de medicação para dor.


Entender essa diferença entre frequência e impacto ajuda a explicar por que a enxaqueca merece ser levada a sério, mesmo quando é tratada, muitas vezes, como um simples incômodo passageiro. Reconhecer os sinais, evitar o uso excessivo de analgésicos e buscar acompanhamento adequado são passos que fazem diferença real na forma como essa condição afeta a vida de cada pessoa.


O fato de a carga global de dor de cabeça não ter mudado em três décadas também é um convite à reflexão. Mostra que ainda há espaço, e necessidade, de investir em diagnóstico mais preciso, tratamento adequado e informação de qualidade sobre o uso responsável de medicação para dor.



 
 
 

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