Tratamento precoce pode reduzir incapacidade em crianças com esclerose múltipla
- Priscila Emery
- há 3 dias
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Receber o diagnóstico de esclerose múltipla em uma criança ou adolescente traz uma pergunta que os pais raramente esperavam precisar responder: qual é o momento certo para começar o tratamento, e com qual intensidade?
Essa decisão pesa ainda mais quando se trata de uma doença que costuma ser associada a adultos, mas que também pode surgir na infância e na adolescência.
Uma pesquisa publicada na revista científica Neurology traz dados que ajudam a entender por que iniciar o tratamento mais cedo, e com medicamentos mais potentes, pode fazer diferença real na vida dessas crianças ao longo dos anos.
O que é a esclerose múltipla pediátrica?
A esclerose múltipla pediátrica é a forma da doença que tem início antes dos 18 anos. Embora seja bem menos comum do que a esclerose múltipla que surge na vida adulta, ela existe e exige atenção específica, já que o sistema nervoso ainda está em desenvolvimento nessa fase da vida.
Assim como ocorre em adultos, o tratamento busca reduzir a atividade inflamatória da doença e preservar, ao máximo, a função neurológica ao longo do tempo.
O que a pesquisa avaliou
Os pesquisadores analisaram dados de três grandes registros internacionais de esclerose múltipla: o MSBase, o registro francês Observatoire Français de la Sclérose en Plaques e o Registro Italiano de Esclerose Múltipla.
Foram incluídos 277 pacientes cujos sintomas começaram antes dos 18 anos e que iniciaram tratamento com terapias de alta eficácia, medicamentos conhecidos como anticorpos monoclonais (natalizumabe, ocrelizumabe ou rituximabe), em um destes dois momentos: durante a adolescência, entre 12 e 17 anos, ou já no início da vida adulta, entre 20 e 22 anos.
A maioria dos participantes era do sexo feminino (72%), e a idade média de início dos sintomas foi de aproximadamente 15 anos. Ao todo, 108 pacientes iniciaram o tratamento ainda na infância ou adolescência, enquanto 169 começaram já na vida adulta.
Para comparar os dois grupos de forma justa, os pesquisadores avaliaram o grau de incapacidade neurológica por meio da Escala Expandida do Estado de Incapacidade, conhecida como EDSS, uma ferramenta amplamente usada para acompanhar a evolução da esclerose múltipla. A comparação entre os grupos foi feita entre os 23 e os 27 anos de idade dos participantes.
Também houve diferenças no percurso até o tratamento. No grupo que iniciou a terapia ainda jovem, o tempo entre o início dos sintomas e o diagnóstico definitivo de esclerose múltipla foi, em média, de cerca de 4 meses, contra cerca de 7 meses no grupo que só tratou na vida adulta. O natalizumabe também foi escolhido como primeira opção de tratamento com muito mais frequência entre os pacientes tratados ainda jovens (31%) do que entre os tratados na vida adulta (2%).
O que os resultados mostraram
O grupo que iniciou o tratamento ainda na infância ou adolescência apresentou um acúmulo de incapacidade significativamente menor ao longo do tempo.
Em média, a pontuação na escala EDSS aumentou 0,41 ponto entre os pacientes tratados ainda jovens, contra um aumento de 0,93 ponto entre os que começaram o tratamento apenas na vida adulta. Mesmo depois de considerar outras diferenças entre os dois grupos, o início do tratamento na infância continuou associado a uma progressão menor da incapacidade.
O benefício foi ainda mais evidente entre os pacientes que já apresentavam algum grau de incapacidade moderada. Nesses casos, quem iniciou o tratamento ainda jovem teve uma chance bem menor de evoluir para níveis mais graves de incapacidade, em comparação com quem esperou até a vida adulta para começar.
Os pesquisadores também observaram menor frequência de novos episódios de piora da incapacidade entre quem foi tratado ainda na infância. Análises complementares, feitas com diferentes períodos de acompanhamento e critérios, confirmaram esse mesmo padrão.
Por que isso é importante, mesmo sendo uma doença rara na infância
A esclerose múltipla pediátrica é rara, mas os anos de vida à frente de uma criança ou adolescente diagnosticado tornam a decisão sobre o tratamento especialmente importante.
Um acúmulo menor de incapacidade nos anos seguintes ao diagnóstico pode significar mais anos preservando a função neurológica, o que impacta diretamente a qualidade de vida ao longo de décadas.
Por isso, os próprios autores da pesquisa concluíram que o uso precoce de terapias de alta eficácia é fundamental para preservar a função neurológica em crianças com esclerose múltipla.
Vale destacar que se trata de um estudo observacional, baseado em dados coletados ao longo do tempo em registros clínicos, e não em um experimento controlado. Os próprios pesquisadores reconheceram limitações, como a ausência de alguns dados clínicos e a falta de exames de imagem padronizados entre os participantes. Isso não invalida os achados, mas reforça a importância de novas pesquisas para confirmar esses resultados.
Os dados sugerem que iniciar o tratamento com terapias de alta eficácia ainda na infância ou adolescência está associado a uma menor progressão da incapacidade neurológica em pessoas com esclerose múltipla pediátrica, quando comparado ao início do tratamento apenas na vida adulta.
Na prática, isso reforça a importância de um diagnóstico precoce e de uma decisão bem informada sobre o tratamento logo após a confirmação da doença em crianças e adolescentes. Cada ano de função neurológica preservada representa mais qualidade de vida ao longo de toda uma trajetória que, nesses casos, começa muito cedo.



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