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Sensibilidade à temperatura na esclerose múltipla pode indicar progressão da doença

  • Foto do escritor: Priscila Emery
    Priscila Emery
  • há 3 dias
  • 4 min de leitura
Sensibilidade à temperatura na esclerose múltipla reforça o valor de sintomas cotidianos como sinais de progressão da doença.
Sensibilidade à temperatura na esclerose múltipla reforça o valor de sintomas cotidianos como sinais de progressão da doença.

Para muitas pessoas com esclerose múltipla, um dia quente ou um banho morno podem significar mais do que um desconforto passageiro. Pernas mais pesadas, fadiga repentina, visão embaçada: sintomas que aparecem e, horas depois, somem como se nada tivesse acontecido.


Esse fenômeno é conhecido pela neurologia há décadas. Mas pesquisas recentes sugerem que ele pode ser mais do que uma curiosidade clínica.


A sensibilidade à temperatura pode carregar informações relevantes sobre como a esclerose múltipla está evoluindo. É o que indicam dados apresentados no Congresso ECTRIMS 2025, em Barcelona, que ajudam a entender por que esse sintoma tão comum merece mais atenção no acompanhamento da doença.


A seguir, veja o que a pesquisa encontrou, por que calor e frio afetam o corpo de formas diferentes, e o que isso pode significar para quem vive com esclerose múltipla.


O que é o fenômeno de Uhthoff?


Quem convive com esclerose múltipla provavelmente já ouviu falar do fenômeno de Uhthoff, mesmo sem saber esse nome.


Ele descreve a piora temporária de sintomas neurológicos causada pelo calor: fadiga, fraqueza muscular, alterações visuais e outras manifestações que se intensificam quando a temperatura corporal sobe, seja por causa do clima, exercício físico ou febre.

Existe também o efeito oposto, chamado de fenômeno reverso de Uhthoff, no qual o frio piora sintomas como rigidez muscular e fadiga.


Pesquisadores da Dell Medical School conduziram um levantamento com 102 pessoas com esclerose múltipla para entender com mais profundidade como esses dois padrões se manifestam e o que eles podem revelar sobre a doença. Os participantes forneceram amostras de sangue e responderam a um questionário sobre características da doença, sensibilidade à temperatura e efeitos de estímulos de calor e frio.


Até então, faltavam levantamentos amplos sobre a prevalência e as características desses dois fenômenos em pessoas com esclerose múltipla. Por isso, os próprios pesquisadores descrevem este trabalho como a investigação mais extensa já realizada sobre o tema até o momento.


O que a pesquisa mostrou sobre sensibilidade à temperatura


Os números chamam atenção pela frequência. O fenômeno de Uhthoff esteve presente em 67% dos participantes, enquanto 27% relataram o padrão reverso, com piora dos sintomas no frio.


O calor foi associado principalmente ao agravamento de fadiga e fraqueza muscular. Já o frio esteve mais ligado à rigidez muscular e também à fadiga. Em alguns casos, os sintomas desencadeados pelo calor duraram mais de uma hora, podendo se estender por até um dia inteiro.


A sensibilidade à temperatura também apareceu com mais frequência entre pessoas que relataram sono prejudicado, fadiga persistente e dor crônica, sugerindo uma relação entre esses sintomas e a forma como o corpo responde a variações térmicas.


Por que isso pode ser um biomarcador de progressão


O achado mais relevante da pesquisa foi a associação entre sensibilidade à temperatura e outros indicadores de progressão da doença.


Pessoas com diagnóstico de esclerose múltipla há mais tempo e aquelas com alterações em funções automáticas do organismo, como frequência cardíaca, pressão arterial e regulação da temperatura corporal, apresentaram maior probabilidade de relatar o fenômeno de Uhthoff.


Além disso, o fenômeno de Uhthoff foi associado a níveis mais elevados de duas proteínas relacionadas à lesão do sistema nervoso: a GFAP, ligada à ativação de células de sustentação do cérebro, e o neurofilamento de cadeia leve, um marcador que costuma se elevar quando há dano neurológico em curso.


Essa combinação, sensibilidade à temperatura associada à duração da doença, a alterações autonômicas e a marcadores biológicos de lesão neurológica, é o que leva os pesquisadores a sugerir que esse sintoma pode funcionar como um biomarcador de progressão da esclerose múltipla.


O que muda quando o tratamento começa


Um dado importante da pesquisa diz respeito ao impacto do tratamento sobre esses sintomas. Cerca de 32,5% dos participantes relataram melhora do fenômeno de Uhthoff após o início de uma terapia modificadora da doença. Entre quem apresentava o padrão reverso, 25% relataram melhora semelhante.


Isso sugere que a sensibilidade à temperatura não é apenas um sintoma isolado e imutável, mas algo que pode responder ao tratamento em curso, funcionando como um sinal a mais para acompanhar a evolução clínica ao longo do tempo.


Na prática, isso reforça a importância de relatar ao neurologista como o corpo reage ao calor e ao frio, e se essa reação muda depois do início ou da troca de um tratamento. Uma informação que antes podia parecer apenas um detalhe do cotidiano passa a ganhar valor clínico dentro do acompanhamento da doença.


A pesquisa apresentada no ECTRIMS 2025 reforça que a sensibilidade ao calor e ao frio na esclerose múltipla vai além do desconforto do dia a dia. Os resultados sugerem que esse sintoma está relacionado ao tempo de doença, a alterações em funções automáticas do organismo e a marcadores biológicos de lesão neurológica, o que aponta para seu possível papel como biomarcador de progressão.


Na prática, isso significa que relatar como o corpo reage ao calor ou ao frio pode ser uma informação valiosa durante o acompanhamento neurológico, tanto para entender a evolução da doença quanto para avaliar a resposta ao tratamento.


Prestar atenção a esses sinais, muitas vezes vistos apenas como incômodo, pode ajudar a compor um retrato mais completo de como a esclerose múltipla está se comportando em cada pessoa.




 
 
 

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Neurologista - CRM 26635 - RQE 15534

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