Enxaqueca com Aura: o que a ciência revela sobre sintomas, riscos e tratamentos
- Priscila Emery
- 5 de jan.
- 3 min de leitura

O que é a enxaqueca com aura
A enxaqueca com aura é um subtipo de enxaqueca caracterizado pela presença de sintomas neurológicos transitórios que antecedem ou acompanham a dor de cabeça. Esses sintomas costumam ser totalmente reversíveis e incluem alterações visuais, sensoriais, da fala ou da linguagem. Aproximadamente 30% das pessoas com enxaqueca apresentam aura, sendo a aura visual a forma mais comum.
De acordo com a Classificação Internacional das Cefaleias (ICHD-3), a aura ocorre em um intervalo de tempo bem definido e reflete alterações temporárias da atividade cerebral, sem deixar sequelas estruturais imediatas.
Diferenças biológicas entre enxaqueca com e sem aura
Estudos recentes mostram que a enxaqueca com aura não é apenas uma variação clínica da enxaqueca comum, mas apresenta bases biológicas distintas. Exames de neuroimagem demonstram alterações estruturais e funcionais específicas no cérebro desses pacientes, especialmente relacionadas à excitabilidade cortical e à regulação do fluxo sanguíneo cerebral.
Essas diferenças ajudam a explicar por que a enxaqueca com aura está associada a maior risco cardiovascular, incluindo o aumento do risco de acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico, sobretudo em determinados grupos.
Depressão cortical alastrante: o mecanismo central da aura
O principal mecanismo fisiopatológico da enxaqueca com aura é a depressão cortical alastrante (DCA). Trata-se de uma onda lenta de despolarização neuronal e glial que se propaga pelo córtex cerebral, seguida por uma supressão temporária da atividade neural.
Durante esse processo, ocorrem alterações iônicas, liberação de neurotransmissores como o glutamato e redução transitória do fluxo sanguíneo cerebral. Esses fenômenos explicam os sintomas típicos da aura, como pontos luminosos, linhas em zigue-zague, formigamentos ou dificuldade de fala.
Indivíduos com enxaqueca com aura tendem a apresentar maior excitabilidade neuronal, o que aumenta a suscetibilidade ao desencadeamento da DCA diante de estímulos como estresse, alterações hormonais, privação de sono ou estímulos sensoriais intensos.
Enxaqueca com aura e risco de AVC
Evidências consistentes indicam que pessoas com enxaqueca com aura têm risco significativamente maior de AVC isquêmico em comparação com indivíduos sem enxaqueca. Esse risco é particularmente elevado em mulheres jovens, especialmente quando associado a tabagismo ou uso de contraceptivos hormonais combinados.
Os mecanismos envolvidos são multifatoriais e incluem:
Reduções transitórias do fluxo sanguíneo cerebral associadas à DCA.
Alterações vasculares e disfunção endotelial.
Estados pró-trombóticos, potencializados pelo estrogênio.
Além disso, fatores como obesidade, hipertensão e sedentarismo podem potencializar esse risco, reforçando a importância de uma abordagem preventiva ampla.
O papel do peptídeo relacionado ao gene da calcitonina e os novos tratamentos
O peptídeo relacionado ao gene da calcitonina desempenha papel central na fisiopatologia da enxaqueca. Ele está envolvido na inflamação neurogênica, na vasodilatação e na modulação da dor, além de participar indiretamente dos mecanismos ligados à aura.
Os anticorpos monoclonais anti-CGRP, como erenumabe, fremanezumabe e galcanezumabe, revolucionaram o tratamento preventivo da enxaqueca. Estudos clínicos e dados de vida real mostram redução significativa da frequência e da intensidade das crises, inclusive em pacientes com enxaqueca com aura, com bom perfil de segurança.
Há evidências crescentes de que esses medicamentos podem também interferir nos mecanismos centrais relacionados à DCA, contribuindo para o controle dos sintomas da aura.
Fatores desencadeantes e sensibilidade sensorial
Pessoas com enxaqueca com aura apresentam hipersensibilidade a estímulos visuais, como luzes piscantes, contrastes intensos ou mudanças bruscas de iluminação. Essa característica está relacionada à hiperexcitabilidade do córtex visual e pode facilitar o surgimento da DCA.
Outros fatores ambientais também podem atuar como gatilhos, incluindo alterações climáticas, exposição a ambientes de alta altitude e privação de sono.
Enxaqueca com aura e saúde mental
A enxaqueca com aura está associada a maior prevalência de transtornos psiquiátricos, especialmente depressão e ansiedade. Estudos de longo prazo mostram aumento do risco de ideação suicida e tentativas de suicídio em pessoas com cefaleia crônica, com impacto ainda mais significativo nos pacientes com aura.
Essa relação é considerada bidirecional e envolve mecanismos como sensibilização central, alterações do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e fatores genéticos compartilhados.
Conclusão
A enxaqueca com aura é uma condição neurológica complexa, que vai além da dor de cabeça. Compreender seus mecanismos, riscos associados e opções terapêuticas é essencial para um manejo mais seguro, personalizado e eficaz. O acompanhamento neurológico regular e a abordagem integrada dos fatores vasculares, ambientais e emocionais são pilares fundamentais no cuidado desses pacientes.




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