Menopausa influencia forma de apresentação e comorbidades na Esclerose Múltipla
- Priscila Emery
- 5 de jan.
- 3 min de leitura

Menopausa e Esclerose Múltipla: um novo olhar clínico
A transição para a menopausa pode alterar a forma como a esclerose múltipla (EM) se manifesta e quais comorbidades (doenças associadas) as pacientes enfrentam, sugere um estudo apresentado no ECTRIMS 2025, maior congresso sobre pesquisa e tratamento da EM.
A pesquisa analisou dados de 864 pacientes com EM, incluindo 298 mulheres pré-menopausa, 300 mulheres pós-menopausa e 265 homens da mesma idade, para comparar padrões iniciais de sintomas e a presença de outras condições de saúde entre esses grupos.
Diferenças no início dos sintomas da EM
Uma das descobertas mais marcantes foi que o local de início dos sintomas neurológicos variou conforme o status hormonal:
🔹 Mulheres pré-menopausa: tiveram mais frequentemente a neurite óptica (sintomas relacionados ao nervo óptico) como primeiro sinal, com 21,8% dos casos.
🔹 Mulheres pós-menopausa e homens: apresentaram maior prevalência de sintomas iniciais relacionados à medula espinhal, com 44% e 48,3%, respectivamente.
🔹 Mulheres pré-menopausa: 27,5% iniciaram sintomas pela medula, número menor em comparação com os outros grupos.
Essas diferenças sugerem que o status hormonal e mecanismos neuroprotetores associados ao estrogênio podem influenciar como e onde as lesões iniciais da EM se desenvolvem no sistema nervoso central.
Comorbidades variam conforme a menopausa
Além dos padrões de apresentação clínica, o estudo também revelou que o perfil de comorbidades difere significativamente entre os grupos:
Mulheres pré-menopausa: apenas 15,1% tinham comorbidades, e os problemas de saúde mental, como depressão e ansiedade, eram mais comuns nesse grupo em comparação com as mulheres pós-menopausa.
Mulheres pós-menopausa: 41% tinham comorbidades, sendo as doenças cardiovasculares (como hipertensão, arritmia e doença arterial coronariana) as mais frequentes (24,7%).
Distúrbios endócrinos e metabólicos, como diabetes tipo 2, hipotireoidismo e dislipidemia, foram observados em 10,3% das mulheres pós-menopausa.
Homens: apresentaram um perfil de comorbidades parecido com o das mulheres pós-menopausa, especialmente em relação aos riscos cardiovasculares.
Esses dados reforçam a hipótese de que a proteção hormonal presente antes da menopausa, associada ao estrogênio, pode desempenhar um papel importante na saúde geral das mulheres com EM, enquanto a perda desse hormônio na menopausa pode favorecer um acúmulo maior de comorbidades.
Impacto sobre mortalidade e implicações clínicas
Durante o período de acompanhamento do estudo, 15 homens e 9 mulheres pós-menopausa morreram, enquanto nenhuma morte foi registrada entre as mulheres pré-menopausa. Isso sugere que a combinação de idade biológica mais avançada e maior carga de comorbidades pode influenciar a mortalidade em pacientes com EM.
Segundo os autores, essas diferenças têm implicações práticas para o cuidado clínico:
✨ Mulheres pré-menopausa: podem precisar de acompanhamento mais próximo da atividade inflamatória da EM e de estratégias para otimizar terapias modificadoras da doença.
💊 Mulheres pós-menopausa e homens: podem se beneficiar de abordagens que foquem em prevenção de neurodegeneração, gerenciamento de comorbidades e redução do risco cardiovascular.
Por que isso importa para pacientes com EM
A EM é conhecida por sua variabilidade na apresentação e progressão, e fatores como idade, sexo hormonal e comorbidades desempenham um papel importante na trajetória da doença.
O estudo apresentado no ECTRIMS indica que a menopausa não é apenas uma mudança hormonal, mas pode estar associada a padrões distintos de sintomas iniciais e a diferentes perfis de comorbidades, o que pode ajudar médicos a personalizar o tratamento para mulheres em diferentes fases da vida.
Entender essas nuances pode contribuir para um cuidado mais eficaz, reduzindo o impacto da EM no dia a dia das pacientes e ajustando estratégias de manejo com base em fatores biológicos e de risco mais amplos.
Conclusão: o valor de reconhecer diferenças por fase de vida
Este estudo reforça a necessidade de olhar para a EM através de uma lente que leve em conta a menopausa como um elemento potencialmente modulador do quadro clínico e das comorbidades associadas. Para pacientes, cuidadores e profissionais de saúde, isso significa que a avaliação do status hormonal pode ser um componente importante no planejamento de terapias personalizadas e no acompanhamento da evolução da doença ao longo da vida.




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